Artigo

Nas mãos de cuidador inspirado

Ele precisava de três cuidadores, diariamente. Revezavam- se em turnos, pois o paciente era muito dependente. Até então era muito ativo e atencioso, mas com a idade, as limitações, a começar pela memória, impuseram-lhe novas condições na rotina de vida. Ainda assim, mantinha suas preferências pessoais, cultivava suas leituras, recebia visitas dos amigos chegados e certa autonomia. Novos eventos orgânicos lhe impuseram mais limitações.

Foram as recentes dificuldades de mobilização que lhe impuseram a nova condição de cadeirante. Os cuidadores eram seus ‘motoristas’ contínuos e atendiam aos seus mínimos desejos. 

Seus amigos faziam-lhe visitas surpresas na casa onde morava na capital e, assim, levavam momentos de alegria e de muitas recordações, estimulando a necessária conexão entre o laborioso passado e o resistente presente daquele que foi excelente professor. Uma ideia, entretanto, voltava sempre à sua claudicante memória. Tudo começou com um convite.

Um dos cuidadores, certamente o mais sensível, teve a brilhante ideia de sugerir ao patrão que fossem passar uns dias na praia, em casa de familiar. Tudo preparado, partiram.

O descanso no litoral incluía passeios na praia, sempre na cadeira de rodas. Num dos dias, ele pediu para que entrassem na água. Queria sentir a agradável sensação de bem-estar que o mar traz e entrou com a cadeira de rodas n’água. Exultou com a experiência, “parecia uma criança” – disse o auxiliar cuidador. Aquela aventura foi marcante e o sorriso voltou naquele semblante de professor emérito que conhecia tão bem a alma humana de seus sempre queridos discípulos. Por isso mesmo, fora várias vezes homenageado em sua vida profissional.

Na volta a São Paulo, com o passar de algumas semanas, o professor confessou àquele cuidador uma ideia que soou como surpresa. Afirmou com muita segurança que pressentia sua partida e queria, antes, voltar mais uma vez ao mar, sentir aquela sensação de paz e alegria que lhe fora proporcionada anteriormente, mesmo com as limitações que o acompanhavam. Programou-se o retorno e partiram novamente.

No dia da chegada teve seu desejo atendido. Ficou muito feliz com aquela experiência sensorial tão ansiada n’água do mar e agradeceu muito pela oportunidade que lhe fora dada. Agradeceu a todos. Naquela noite, teve um infarto de miocárdio fulminante (23-08-2017). 

Todos nós choramos a partida do Professor Marcello Fabiano de Franco.
 
Francisco Habermann é médico e professor aposentado da FMB-Unesp. Membro correspondente da ABL Contato: fhaber@uol.com.br

Sobre o docente homenageado
MARCELLO FABIANO DE FRANCO (S. Paulo, 1940 – 2017) - Médico Patologista formado na FM-USP (1964) e Professor Emérito de Patologia da FMB-Unesp, onde se aposentou. Graduado em medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP -1964), fez doutorado em patologia na antiga Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu (FCMBB – 1972), livre-docência na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1976), pós-doutorado no Kennedy Institute of Rheumatology, Londres (1973-1975), pós-doutorado na Universidade do Texas (1985) e pós-doutorado no Research Center for Pathogenic Fungi and Microbial Toxicoses, no Japão (1988). Membro da Academia Paulista de Medicina e da Sociedade Brasileira de Patologia. Foi professor titular da FMB-Unesp até 1996 e, posteriormente, professor titular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Atuou como consultor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), da Fundação Oswaldo Cruz e de revistas científicas nacionais e internacionais.

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