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O MUNDO HIPER-REAL

As sociedades contemporâneas perderam coesão e estão cada vez mais desgastadas pelo comportamento individualista de seus membros. Em parte, por conta das transformações ocorridas na organização do trabalho e na tecnologia; em outra parte, por que declinaram as forças do Estado-nação e as culturas nacionais dominantes.

As instituições e as relações sociais, que eram hegemônicas na fase áurea do Estado, também se debilitaram: os partidos políticos de massa perdem espaço para as novas formas de organização social baseadas em gênero sexual, raça ou localização. O sentimento de classe social e as experiências compartilhadas no trabalho não existem para mais de 90% da população, pois as pessoas deixaram o chão das fábricas e o eito campestre para trabalharem no setor de serviços ou na solidão computadorizada de um home-office.

As novas sociedades produzem uma surpreendente associação entre o local e o global. A internacionalização da economia e da cultura minam a coesão nacional, mas fertilizam as culturas locais dando impulso às etnicidades. Isso leva aos nacionalismos periféricos dos catalães, celtas, grupos indígenas latino-americanos, tadjiques...

Entre as palavras de ordem produzidas pelo movimento estudantil francês, na década de 1960, estava “pense globalmente, aja localmente”. A frase se aplica aos movimentos feminista e ecológico, além das revivescências religiosas do fundamentalismo protestante e islâmico. E tem uma surpreendente aplicabilidade espacial: a população dos países mais industrializados, que se concentrava nas metrópoles, dispersa-se por pequenos municípios, cidades universitárias e subúrbios, trabalhando em empresas com foco em pesquisa e alta tecnologia. Ao local em que se vive, atribui-se identidades territoriais, tradições e história, mesmo que inventadas ou imaginadas.

Parece bom? Não é! Dispersas, as pessoas ficam vulneráveis aos meios de comunicação de massa que, de maneira ubíqua e em escala, constrói um “admirável mundo novo”, como no livro de Huxley: uma realidade eletrônica saturada de símbolos

e imagens que distorce totalmente a realidade objetiva. O que é veiculado nada mais é que uma simulação da realidade, pois a avalanche de imagens que nos atingem são cópias que não se originam em fatos. Constrói-se uma paisagem hiper-real, onde não é possível distinguir o imaginário do real, o signo de seu referente, o verdadeiro do falso. Baudrillard, filósofo francês, sintetizou essa situação: “A história deixou de significar, de referir-se a alguma coisa; as coisas estão se reproduzindo ad infinitum.”

O mundo hiper-real tem sua representação mais evidente em Disneylândia ou em Las Vegas. Nesses locais, deu-se concretude à imaginação, construindo-se o falso absoluto. Ou, como disse Umberto Eco: “Na ilusão extraordinária de realismo criada nesses lugares, em sua extravagante bricolagem de estilos e de objetos tirados de todos os países e de todas as histórias, há uma fusão da cópia e do original, e a cópia, na verdade, parece mais convincente que o modelo.”

A Disneylândia existe para esconder o fato de que, no final das contas, os EUA são a Disneylândia. Da mesma forma que as prisões existem para ocultar o fato de que as sociedades são, no final das contas, carcerárias.

Las Vegas, com seu aspecto fantasmagórico de miragem em pleno deserto, é uma cidade que dissolve o ego, assassina o real e inviabiliza ideologias.

No mundo hiper-real, que está se configurando planetariamente, não há indivíduos autônomos. Nele, o homem deixa de ser ator ou dramaturgo, tornando-se, apenas, um terminal de redes múltiplas.

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