Artigo

A política como ela não é

Yeda Crucius veio a público apenas para dar um recado a FHC, dizendo que Luciano Huck não é cogitado como candidato pelo PSDB (“As prévias e o PSDB”, 14/2). Sabendo que na política tucana não há definições, apenas arranjos, ao dizer que estão no páreo apenas Alckmin e Virgílio, a deputada pode estar medindo forças com o ex-presidente. Ou citando o guia à entrada do inferno à busca do elixir da longa vida, com o perdão dos implícitos trocadilhos.

 

A “amiga’ Marli Iglesias avoca que “Cristiane Brasil é vítima dos machistas” (16/2), uma afirmação paradoxal, haja vista a misoginia dos que assumiram o governo em Brasília. No texto, ela desconsidera que o fato principal do impedimento é o peso das condenações trabalhistas a alguém que pretendia assumir o Ministério do Trabalho.

 

Hélio Schwartsman direciona sua pergunta “O constituinte é alfabetizado?” (17/2) para dois aspectos importantes. Primeiramente, fez-me consultar as bases históricas da Assembleia Nacional

Constituinte de 1987/1988 para verificar que os termos inicialmente propostos eram “considera-se inocente todo cidadão”, que foram alterados para “ninguém será considerado culpado”. Uma sutileza, sim, mas havia afirmação expressa da presunção de inocência, o que dificultaria mais a prisão do inocente. O articulista também deixa clara a necessidade da nebulosidade nos textos legais, pois há de se manter o emprego dos operadores do direito, haja vista que engordam seus proventos com os litígios propositadamente inseridos pelos colegas parlamentares.

 

A cartilha liberal é falaciosa porque parte do sofisma que sua base é econômica, enquanto que o governante deveria ter um programa de prerrogativas sociais. A questão não é o equilíbrio de contas e, sim, desonerar o pobre e cobrar impostos do rico – todas as pesquisas mostram que, proporcionalmente, quem mais ganha, menos paga. A falácia do estado liberal mínimo cai por terra quando o empresário brasileiro não corre riscos se não for com o apoio público, em qualquer época de nossa história, quer seja pelo financiamento direto ou pela isenção de impostos.

 

Não há como discordar de Priscila Cruz que defendeu a “Educação já!” (15/2), mas é difícil aceitar que parlamentares e outros eleitos farão da educação sua base, uma vez que saber é poder, poder este que deixaria de ser monopólio desses representantes. Além disso, o rótulo de público precisa ser entendido como de todos e não de ninguém. Em termos econômicos, que é o que vale ao final, os grupos que estão comprando escolas no Brasil, transformando a educação em um negócio forte e rentável, possuem uma força além da lógica e da ideologia que combate a dignificação da escola pública. Precarizar para privatizar, eis o lema.

 

A intervenção militar no Rio é puro oportunismo, baseada, como sempre, na oclusão do principal. Se a fonte primária da violência é o narcotráfico, por que não avaliar seriamente a descriminalização das drogas? O crime organizado impede, eis a verdade. O resultado é a opressão a negros e pobres, impedidos no seu ir e vir. E a elite branca do asfalto até aplaude, como fez em 1964. A intimação do professor Carlini e a intervenção no Rio de Janeiro guardam forte relação. Enquanto um estuda os efeitos medicinais da maconha, cuja descriminalização é uma das bandeiras da democracia moderna, o ato do governo federal se pauta na criminalidade sustentada especialmente pelo tráfico de drogas. Fossem liberadas as drogas, diminuiria o crime, apontam os especialistas, mas é mais fácil a truculência militar que o conhecimento científico. Quando o soldado revista a bolsa da criança e o cientista é intimado a depor, temos a medida do retrocesso no país.

 

Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador no IPBEN – Unesp de Rio Claro, membro da Academia Campineira de Letras e Artes e da Academia de Letras de Lorena.

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